@rodrigosavazoni

Recebemos, recentemente, pelo nosso canal de contato algumas perguntas enviadas pela Consultoria Mobiliza.  Trabalhamos então para respondê-las e constatamos que essas respostas podem ajudar quem tem nos acompanhado a entender melhor o que estamos buscando. As respostas foram produzidas por mim (Rodrigo Savazoni), pela nossa diretora (Georgia Nicolau) e pelo co-fundador e co-criador do LABxS (Lab Santista), Niva Silva. Trata-se de uma reflexão sobre o comum e as organizações do Século 21. 

  • O que seria uma organização social do século XXI? Quais características vocês destacariam?

Difícil responder essa indagação de forma clara e objetiva. Essa é uma das perguntas que orientou a criação do Instituto Procomum e vem orientando nosso processo de planejamento. Somos uma organização que nasce com a proposta de ser um experimento organizacional.

A primeira pergunta que nós fizemos foi: precisamos de uma organização? Faz sentido se organizar em uma organização? Precisamos de uma organização para fazer o que queremos? As circunstâncias do mundo contemporâneo, com suas dinâmicas de captura político-econômica, pedem essa indagação. Muitas experiências políticas e sociais relevantes, atualmente, não são e nem pretendem ser organizações. Nós entendemos que era preciso criar uma organização para pensar um mundo que talvez prescinda delas. E isso talvez aponte para um ponto central desse debate.

Nos parece que uma organização social do século 21 precisa pensar nas pessoas e a partir das pessoas nas organizações. Não pessoas como indivíduos isolados, nem como engrenagem de uma estrutura maior que elas. Pessoas, apenas, em sua complexidade. Se uma organização conseguir dar conta das necessidades de uma pessoa, ela pode agir para construir uma sociedade também feita de pessoas articuladas entre si e que atuem em prol do bem comum. No debate sobre urbanismo, muito se fala em cidades redesenhadas para a escala humana, o que significa cidades que valorizem a cultura do convívio, do encontro, das trocas, da cooperação, da colaboração, da solidariedade. Acredito que precisamos pensar em organizações estruturadas para a escala humana.

Um conceito que nos faz pensar nessa dicotomia “organização ou não” é o de extituições ou de extitucionalização. Ele aparece em Foucault, também depois em Michel Serres. Tomamos contato com ele por intermédio do intelectual espanhol Antonio Lafuente e dos urbanistas do Viveros de Iniciativas Cidadãs, de Madri. Em português praticamente ainda não foi difundido. Tem a ver com a forma aberta que certos agrupamentos assumem no contexto das redes. Parte de uma ideia de que as rupturas promovidas pelas novas tecnologias de informação e comunicação e, sobretudo, a internet, nos levam a arranjos móveis que negam o que existia antes e não chegam a conformar modelos estáveis. Estão sempre em movimento.

No nosso entender, a  limitação dessa configuração é que ela nos leva a uma cisão, onde há um “velho mundo”, que domina as leis e as instituições, e esse “novo mundo”, que não se adéqua aos formatos vigentes. Nós preferimos assumir um caminho de diálogo. Temos pensado muito no IP que precisamos de interfaces e plataformas que permitam que os valores dessas extituições possam transformar esse sistema, seja por meio da cooperação entre pares, do hackeamento ou da ruptura.

Em nossa experiência, estamos apostando na ideia de laboratórios. Neste artigo do Rodrigo Savazoni, essa temática é aprofundada: http://www.articaonline.com/wp-content/uploads/2016/09/Gcultural2016-Mesa1-Laboratorios-ciudadanos.pdf Creio que lhes pode ser útil. O texto diz: “Assim, mais que um espaço, devemos compreender um laboratório cidadão como rede que congrega pessoas, máquinas, iniciativas cidadãs e infraestruturas públicas, privadas e autônomas e existe na articulação de todas essas dimensões. Uma rede que congrega organizações e extituições. Menos que um ponto estático, uma interface, uma plataforma, uma ponte entre mundos. Conecta e faz conectar, na busca sempre por criar condições para que as pessoas façam, realizem, produzam, inventem – lembremos que é um espaço destinado aos fuçadores. Pode se traduzir em uma, duas ou quantas sedes forem necessárias para que essa rede se realize.” Acredito que essa visão ajuda a projetar como podemos atuar de forma efetiva e coerente para enfrentar os desafios que este século impõe.

Como dissemos anteriormente, nos vemos como um experimento organizacional, e por isso nos juntamos a organizações e iniciativas parceiras para construir o ORG.LAB, um laboratório colaborativo e distribuído para formular caminhos inovadores para nossas experiências. Essa é uma das frentes principais de atuação do IP. Queremos testar propostas e formatos aplicando-os ao nosso cotidiano. Sabemos que muito do que existe até aqui não nos agrada, seja no mundo empresarial, nos governos ou mesmo na sociedade civil. Mas também tem muita gente pensando sobre isso e propondo soluções. Então estamos experimentando e vamos experimentar muito mais ainda.

  • Quais valores comuns podemos destacar entre as organizações inovadoras?

Seguindo o tom da pergunta anterior, não cremos que haja uma resposta única para essa questão. Gostamos muito de uma formulação feita por Raul Oliván, que dirige um projeto de política pública em Saragoça, na Espanha, que é exemplar, o Zaragoza Activa. Oliván, em um texto escrito após o processo que coordenamos aqui em Santos, o LAB.IRINTO, afirma que as questões centrais não mudaram. O que muda são os caminhos de enfrentar problemas históricos que perseguem a humanidade (a maior parte deles produzidos pela própria humanidade). Ou seja, não pode haver uma organização social inovadora que não esteja plenamente dedicada ao combate à desigualdade, à afirmação de uma democracia real, em conexão com os “de baixo”. Sem isso, o caminho pode ser interessante, mas o foco é inócuo.

Os problemas atuais para enfrentar essas questões são de escala global, como o aquecimento global, a tragédia do neoliberalismo e dos mercados financeiros, a questão das mobilidades culturais e da xenofobia, dos refugiados, o que só amplia nossa responsabilidade. Ao longo dos tempos, muitas outras mulheres e homens se dedicaram à construção de um mundo mais justo e livre. Entendo que estamos construindo mais um capítulo dessa história. Tudo isso para dizer que valores como a democracia, a luta pela igualdade e a liberdade, o compromisso ético com o outro e a diversidade são os que não podemos perder de vista.

Inovação é introduzir uma diferença na diferença. Fazer de um jeito diferente aquilo que sempre se fez ou fazer algo que ainda não foi feito anteriormente. Uma ginga, um drible, um meneio de corpo fazem um futebol inovador. Acreditamos, portanto, que é impossível ser inovador sem ser criativo, sem dar asas à imaginação, sem entregar-se às trocas culturais, sem incorporar a arte no cotidiano. Para além disso, na base do movimento dos comuneiros ao qual pertencemos, temos a colaboração radical, a abertura, a dádiva, a generosidade e a crença de que podemos nos auto-governar como valores estruturantes do que somos e queremos construir.

Por fim, precisamos estar muito atentos ao que um dia se convencionou chamar micropolítica, mas que diríamos é muito mais que isso. Não é possível ser inovador sem aprender com a luta das mulheres, dos negros e negras, dos indígenas, dos gays, lésbicas e transgêneros, dos deficientes, ou seja todos aqueles que costumam ser sub-representados em nossa sociedade. Não sei se esses valores são comuns às organizações inovadoras, mas trabalhamos para que sejam.

  • O que mudou no campo social nos últimos 10 anos? Qual o cenário hoje e seus maiores desafios?

Essa pergunta daria origem a algumas teses de doutorado. Comecemos, então, pelo começo. Dez anos atrás é quando? 2007. Ok, primeiro ano do segundo mandato de Lula. Estávamos dentro de um processo de inclusão social via mercado e políticas públicas no país. As ONGs, os sindicatos e os movimentos sociais mantinham estreita relação com o governo, na formulação e execução de políticas públicas. Um processo que alguns sociólogos analisam como parte de uma cooperação necessária e outros como cooptação. Destacamos como um experimento interessantíssimo os Pontos de Cultura, reconhecendo formas de ação cultural historicamente sub-representadas, numa aliança estado-sociedade extremamente inovadora promovida pelo Ministério da Cultura de Gilberto Gil, Juca Ferreira e Célio Turino. O fato é que de lá para cá, e isso se acelera no primeiro ano do governo de Dilma Rousseff, essa relação se esgarçou. Dilma tentou corrigir as “distorções” da relação Estado-Sociedade com a aprovação do Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil, que está em implantação. É cedo para avaliar sua qualidade. Com a ruptura da ordem democrática, estamos em um ocaso. Não dá para saber para onde vamos.

Em paralelo, a partir de 2010, emerge esse novo sujeito político, o cidadão interconectado, que no mundo todo mostra sua cara a ponto de ser eleito em 2011 a “pessoa” do ano da Time. Quem não se lembra do cartaz “Saímos do Facebook”, empunhado nas manifestações brasileiras? Savazoni escreveu sobre essa eclosão isso, aqui (http://revistazcultural.pacc.ufrj.br/as-redes-sao-as-ruas-sao-as-redes-o-territorio-hibrido-da-ciberpolitica/) e também no capítulo sobre o Brasil do livro Ativismo Político em Tempos de Internet, organizado pela Plataforma Democrática, caso vocês tenham interesse em se aprofundar. Estamos, no Brasil, sob influência da desestabilização aberta pelo ciclo de Junho de 2013 e suas consequências com o surgimento de forças radicalizadas à esquerda e à direita de nossa sociedade. Internacionalmente, estamos vendo lideranças populistas com viés autoritário ganharem espaço político.

Há vários livros que analisam o momento atual. Um deles é o PostCapitalism – A Guide for the Future, de Paul Mason, que descreve um fenômeno interessantíssimo que está em curso. Nas barbas de um capitalismo caduco, começam a brotar flores que apresentam outras possíveis formas de vida. Experiências reais de economia colaborativa, de construção de comuns, de produção entre iguais, liderados por pessoas que não querem esperar o sistema ruir para inventar uma nova sociedade. São a essas pessoas que estamos conectados e são esses os processos que queremos impulsionar. Acreditamos que está faltando articulação entre esses atores e queremos cooperar com esse esforço de trocas.

  • Como o Procomum, do ponto de vista de mobilização de recursos, tem buscado ser inovador?

Esse é um tema que tem tomado bastante tempo das nossas reflexões. Queremos nos somar ao movimento de construção de uma economia do comum. Mas como fazê-lo? Bom, primeiro, estamos buscando nos autoformar nessa direção. Agora mesmo estamos publicando algumas traduções feitas sobre as experiências cooperativistas na Europa. Também estamos trabalhando junto ao Instituto Cidade Democrática, de Henrique Parra Parra e Ricardo Poppi, na construção de uma plataforma de marketplace para trocas de conhecimento e serviços, em que pretendemos usar a tecnologia do Blockchain. O plano é aplicar essa solução na gestão do LABxS (Laboratório Santista), o laboratório cidadão que é uma rede de pessoas-iniciativas-infraestruturas que estamos articulando em Santos. Tudo ainda muito incipiente. Temos um privilégio que é ter um financiador internacional, a Fundação Ford, que não só nos financia como apoia essa perspectiva laboratorial que assumimos. Nosso plano é chegar até o fim de 2018 com outras respostas para essa questão. Por hora, nosso financiamento é bem tradicional.

Somos uma associação que sobrevive de doação de uma grande instituição internacional de financiamento. Nós, em nossa trajetória pessoal, em experiências anteriores, já experimentamos com vários processos. Por exemplo, à época da Casa da Cultura Digital, que foi uma extituição, embora não disséssemos isso, tivemos uma página dentro do Catarse para nossos crowdfundings. Neste momento, ainda estamos amadurecendo a questão do financiamento. Abertos a boas ideias.