Por Niva Silva

O Ciudad Posible foi o primeiro encontro de laboratórios urbanos da América Latina e teve como proposta reunir labs de inovação cidadã, trocar experiências e tecer uma visão sobre o estado atual do tema na região. A atividade é organizada pelo LabCDMX e aconteceu em julho na Cidade do México, no México.
A convite da organização, participei do encontro como representante do LABxS (Lab Santista). Vale lembrar que convite da organização surgiu para que apresentássemos como utilizamos a inovação cidadã a partir de uma organização da sociedade civil nossa proposta de transformação social pelo caminho do comum.

As atividades

Niva Silva representou o LABxS (Lab Santista) no Ciudad Posible

Niva Silva representou o LABxS (Lab Santista) no Ciudad Posible

O primeiro dia de encontro teve um caráter formal: participaram somente os 10 labs convidados na qual os representantes apresentaram suas atividades e puderam compartilhar experiências e conhecer uns aos outros.
Já o segundo e o terceiro dia foram marcados por atividades abertas ao público, que misturaram quatro formatos: Prática Relâmpago, quatro convidados falam por até 20 minutos dentro de um tema, depois abre-se para perguntas do público; Painel, três convidados e um mediador debatem um tema, após questões provocadas pelo moderador; Microfone Aberto, com convidados apresentando seus projetos; e FUN, Fuck Up Nights, na qual os participantes apresentaram fracassos e iniciativas que não deram certo em sua jornada, bem divertido e construtivo.

Contando a história do LABxS (Lab Santista)

Contando a história do LABxS (Lab Santista), projetos parceiros e rede no México

Contando a história do LABxS (Lab Santista), projetos parceiros e rede no México

Na troca das jornadas de cada laboratório, falei um pouco sobre a experiência de fundação do Laboratório Santista (LABxS) e foi interessante revisitar a nossa história de formação. Uma questão relevante que acabei trazendo a partir da reflexão sobre o que vivemos nesses primeiros momentos foi a escolha consciente de que tipo de instituição o lab quer ser. Tivemos a habilidade de refletir sobre essa escolha e tomar decisões conscientes sobre que vínculos criar e de onde captar recursos. Muitas iniciativas não têm essa consciência e acabam permitindo que a origem dos recursos defina seu modelo institucional.
Pudemos, então, realizar atividades de engajamento e mapeamento das iniciativas locais. O Lab.irinto. Esse foi um momento de descobertas do potencial e consequente (re)conexão com a cidade.
Saímos da escuta com uma série de pensamentos sobre o momento da região e possibilidades de ações para apoiar as iniciativas cidadãs emergentes. Seguimos então para eleger quais dessas possibilidades seriam prototipadas. Quais de todas as possíveis ações seriam colocadas em teste com o tempo e recurso que tínhamos. Optamos pelo Circuito LABxS 2017 e os Círculos. A avaliação não foi realizada com dados quantitativos, mas levando em conta as experiências promovidas e a contribuição dada às histórias que cruzamos.
Hora de documentar tornar os aprendizados construídos a partir dos protótipos compartilháveis. É justamente onde nos encontramos: criando uma publicação que permite a replicação do modelo de circuito de iniciativas cidadãs.
E a partir daqui? A intenção é iterar, refazer ações evoluindo a partir do que aprendemos. E ainda encontrar outras ações para prototipar.
Além de , claro, renovar e expandir nossos recursos.

Hora de criar afinidades

Depois das apresentações dos labs, a metodologia do evento direcionou os representantes para criarem um mapa de afinidades com o objetivo de criar projetos e soluções em comum.
Tentamos encontrar afinidades – onde, na história de cada lab, nos encontramos?
-Relação público privado
-Legitimidade, líderes de governo reconhecem valor?
-Transições de administração
-Metodologias de inovação e participação
-Rede de labs
-Construir sua narrativa
-Gestão de equipe e projetos
-Porque fazemos isso? Inovação cidadã e sustentabilidade

E a partir disso, buscamos oportunidades.

A intenção de todos era encontrar possibilidades de trabalhar em conjunto. alguns possíveis projetos sugeridos foram:
-Plataforma online para compartilhar projetos e oportunidades;
-Repositório de soluções compartilhadas;
-Sistema de compras colaborativas;
-Agregador de notícias dos labs;
-Intercâmbios e residências entre labs;

Segundo dia do evento

Primeiro encontro dos labs da América Latina

Primeiro encontro dos labs da América Latina

A maior parte dos laboratórios posicionou como objetivo de seu trabalho promover abertura e transparência no trabalho da gestão público. Trabalham, portanto ativamente para criar interfaces de exposição de dados governamentais para a cidadania.

Alguns chegaram a comentar como isso nem sempre é interesse do poder e, portanto, estão sempre inseguros em relação a seus projetos.

A partir do open data, muitos labs realizam hackathons para gerar possibilidades de usos desses dados para melhoria efetiva da vida na cidade. Esse modelo de evento pareceu muito recorrente e, talvez, desgastado, mas é sem dúvida o principal formato de participação cidadã apresentado.

Me chamou a atenção o fato de encontrar uma equipe de design no labCDMX e de que boa parte dos labs relatam que também tem participação de até 60% de designers em suas equipes (Chile).

Além disso, o design é apontado como a ferramenta predominante para o trabalho desses labs. Todos os labs que apresentaram sua metodologia de trabalho com propriedade declararam que se apoiam em metodologias de inovação advindas do design, principalmente o Double Diamond, criado pelo Design Council (UK).

Impressões pessoais

Criando uma rede de labs, uma agenda comum

Criando uma rede de labs, uma agenda comum

A maior parte dos labs convidados eram repartições públicas que cuidam de inovação. E o grosso do público presente era de funcionários da Ciudad de Mexico. Isso me deixou inicialmente inseguro por estar familiar com temas da gestão pública. Mas logo vi que tinha meus pontos a contribuir e também tinha os temas do design para trocar e me tranquilizei, consegui fazer minha parte bem. Mas não sentia muito interesse por parte dos labs naquilo que eu trazia. me parecia que já tinham seus próprios interesses muito focados na gestão.

Nos discursos, senti falta de sensibilidade para a causa das mulheres, dos indígenas e dos menos representados.. A zona de atuação desses labs me pareceu ser sempre a cidade e não as pessoas ou a vida. Os projetos apresentados estão sempre falando sobre o trânsito, o carro, a bicicleta, o metrô, a conta de luz e nunca sobre as pessoas.

Como membro do Instituto Procomum e LABxS (Lab Santista) percebi que nosso trabalho tem características que nos diferem do grupo que encontrei. Éramos a única experiência de lab criada a partir da sociedade civil. Isso nos dá liberdades e responsabilidades: a liberdade de poder experimentar a inovação cidadã a partir da prática do comum; e a responsabilidade de agora, com uma sede física para o LABxS (Lab Santista), experimentar e criar uma vivência comunitária e inovadora.