O LABICxlaPAZ – Pasto, Narino realizou dez ações de inovação cidadã para promover a paz em Pasto, Nariño, sul da Colômbia. Os dez projetos foram selecionados via chamada pública e cem colaboradores de diferentes partes do grupo inscreveram-se como voluntários. Participei como documentarista do projeto Atrapanieblas- Água por la paz que consiste na construção de um sistema que capta água potável da neblina em uma comunidade rural chamada Vereda do Socorro

Por Victor Sousa

O local escolhido para prototiparmos o sistema Atrapanieblas foi a  Vareda do Socorro, um conjunto de pequenas fazendas a 50 minutos de Pasto, Nariño. Cercada por montanhas e com 2800 metros de altitude é ali onde termina os Andes e nasce a Amazônia, como dizem os moradores da região. A escolha do território foi devido às condições climáticas do local.

A comunidade da Vereda do Socorro é composta por 35 famílias, 15 delas em situação de pobreza. A agricultura familiar, especialmente de cebola e cebolinha, é a principal fonte de recursos do local.

O terreno faz fronteira com a terra indígena Refúgio do Sol e seus habitantes têm traços e costumes dos povos originários.

Também vale lembrar que o local era rota da guerrilha armada e, consequentemente, do exército e dos paramilitares. Antes do acordo de paz, os camponeses deixaram de andar, caçar e coletar alimentos nas partes de selva nativa.

Realidade: a urgência da comunidade era outra

Um dos desafios dos laboratórios de inovação cidadã é o curto período para realização do projeto. Tínhamos apenas 15 dias para concluir a instalação do sistema de captação de água. Mas o desafio maior – e realmente importante – era conseguir com que o projeto fizesse sentido para a comunidade, fosse apropriado por eles e realmente os ajudasse a solucionar seus problemas.

Rosa Ruiz e família. Ela teve papel crucial para construção do protótipo: aceitou a construção de um modelo teste em sua casa e nos ajudou com uma série de pequenas modificações, dicas e alterações

A primeira aproximação com a comunidade foi realizada por German Rodriguez, coordenador do projeto. Ele construiu uma versão menor do sistema para testes na casa de Rosa Ruiz, uma das lideranças do local. Porém, a aproximação não foi o suficiente para contemplar todas as demandas dos moradores e convencê-los de que o projeto poderia os ajudar.

No primeiro encontro com Jesus Castro, presidente da associação local, ficou claro que nosso projeto poderia ser verdadeiramente um elefante branco na comunidade.

Ele explicou que captar água da neblina não era uma demanda urgente para eles. Na verdade, existe certa abundância de água na comunidade. Ali nascem os principais rios e afluentes da região e o alto índice de chuva e umidade é suficiente para a rega das plantações.

Os principais problemas relacionados à água eram causados pela ação humana: a contaminação por conta do uso dos agrotóxicos e o aumento de períodos de seca, como consequência das mudanças climáticas.

O Comum e o Comunitário

Ficou claro que os camponeses estavam cansados de projetos do governo e de universidades que não escutavam as suas demandas e eram impostos de cima para baixo.

Como líder comunitário, Jesus Castro explicou que a comunidade já tem indicativos de soluções para os seus problemas, mas não eram escutados ou levados a sério pelo poder público.

Jesus Castro, Nelva Guerrero, Mauricio Guerrero y Jairo Guerrero

As sinceras e verdadeiras palavras de Don Jesus emocionaram nosso grupo e nos pusemos a repensar o papel do nosso projeto e de estarmos ali. Afinal, Don Jesus nos mostrou a força e a inteligência de uma pessoa que trabalha para sua terra e ainda tem forças para defender a natureza e os direitos dos mais pobres.

A partir de uma negociação delicada, mas em que pude exercitar minha capacidade de diálogo, ganhamos a confiança da comunidade, que  se mostrou altamente colaborativa e disposta ao trabalho. Para eles, a única maneira de um projeto funcionar é se ele for construído e gerido por eles mesmos – incluindo a realização de mutirões e rifas.

Foi nesse momento que as ideias do grupo e dos camponeses começaram a entrar em acordo. Explicamos que nossa ideia era justamente que a comunidade pudesse se apropriar, construir e replicar o sistema.

Milhares de quilômetros longe de casa, em montanhas isoladas, foi interessante perceber como a lente do comum e da cidadania feita de baixo para cima – que tanto persistimos e defendemos nos trabalhos IP e do Lab Santista – foi justamente a solução apontada por Jesus Castro para que o projeto fizesse sentido dentro da comunidade.

Jesus Castro e o sistema de alto falantes que utiliza para passar recados à comunidade

Decidimos marcar uma reunião para sábado e apresentar o projeto para toda comunidade. A reunião foi anunciada pelos alto-falantes da casa de Don Jesus. Eles estão estrategicamente colocados em cima das árvores e ressoam por todo o vale – a comunicação de massa da Vereda do Socorro.

Reunião

Na reunião do sábado, representantes de cinco famílias compareceram ao encontro. A primeira constatação do grupo foi que pelas dificuldades diárias e falta de apoio, a comunidade anda desunida e desacreditada.

Como forasteiros, lembramos os membros da comunidade que eles possuem uma série de projetos colaborativos como o aqueduto que foi construído pelos próprios moradores e abastece quase 250 pessoas.

Equipe Atrapanieblas #LABICxlaPAZ 2018 e comunidade El Socorro após reunião

O ponto alto da reunião foi Rosa Ruiz explicando aos outros camponeses como funcionava o sistema Atrapanieblas. Ela já havia demonstrado interesse no projeto e inclusive já tinha sugestões de melhorias e adaptações. Nesse momento, largamos o protagonismo do projeto em definitivo e as famílias perceberam que o sistema poderia ser útil nos períodos de seca e para facilitar os trabalhos no campo.

Durante a reunião, decidimos juntos que iríamos construir o protótipo na Casa de Hector Jojoa, que administra uma reserva natural com sua família.

Casa da família Jojoa onde foi instalado o sistema de captação de água

Mutirão

No domingo realizamos um mutirão no período da tarde que contou com colaboração de cerca de seis famílias da comunidade. Optamos pela construção no ponto mais alto do terreno da família de Don Hector, local mais atingido pela neblina, o que evitará a necessidade de subir toda a montanha com galões de água.

Conseguimos concluir a estrutura em um dia e no dia seguinte terminamos os últimos detalhes da construção. Mostrando o baixo custo e fácil execução do sistema.

Escuta, respeito ao tempo e cocriação

Os aprendizados da construção do Atrapanieblas na Vereda do Socorro podem ser usados como exemplo para outros projetos de inovação dentro de comunidades. É impossível realizar ações sem escuta, sem respeitar seus tempos e demandas e sem construir juntos, compartilhando e multiplicando conhecimento.

A inovação cidadã é apenas uma ferramenta para a solução dos problemas e não uma via de mão única. Na maioria das vezes, as comunidades já possuem soluções, ferramentas e saberes. Falta escuta, respeito, empatia e estímulo para o trabalho comunitário.

Se não respeitar as demandas das comunidades, o intercâmbio de conhecimento e enfocar o bem comum, a inovação cidadã corre o risco de repetir os mesmos erros de projetos tradicionais.

Me parece que é necessário combinar e dividir o esforço entre as questões técnicas dos projetos e as questões humanas. É esse equilíbrio que gera a cooperação e a apropriação das tecnologias.

No fim, unir a comunidade em torno de um projeto comum, do trabalho comunitário e do intercâmbio do conhecimento teve a mesma importância que a construção de um sistema de captação de água.

Foi essa união que chamou a atenção de Andrea Herdugo, que trabalha com a comunidade no município El Peñol, também em Nariño, região que sofre com a falta de água e tem altos índices de neblina.

O Atrapanieblas, sobretudo, mostrou que o camponês, em todo seu potencial colaborativo, conhecimento local e ancestral, pode sim ser um ponto crucial para a construção da paz na Colômbia e para a proteção dos recursos naturais.