Confira o artigo Labs Cidadãos CONSTRUÇÃO DE ESPAÇOS DE AUTONOMIA, COLABORAÇÃO E POLÍTICA, da nossa diretora Georgia Nicolau. O artigo faz parte da coletânea “Cultura digital, internet e apropriações políticas: experiências, desafios e horizontes”, organizado pelos pesquisadores e ativistas João Paulo Mehl e Sivaldo Pereira Silva. (To read the english version, roll to the end of the page or click here).

João Paulo e Sivaldo são do Laboratório de Cultura Digital (Lab), espaço de experimentação que trabalha desenvolvendo e promovendo tecnologias de alta demanda social em parceria com pontos de cultura, movimentos sociais e outros agentes organizados em rede. De acordo com os organizadores, a proposta do livro é reunir um conjunto de agentes, praticantes e pesquisadores que atuam na apropriação política das tecnologias digitais da comunicação em prol de uma visão de mundo colaborativa, cooperativa e potencializadora. A publicação está estruturada em dois blocos. A primeira parte, intitulada “Estudos e pesquisas”, traz um conjunto de capítulos na forma de artigos produzidos por estudiosos de diferentes vertentes, mas que possuem em comum a preocupação de pensar a comunicação digital e política a partir de perspectivas atentas tanto a questões normativas quanto a possíveis problemas ou distorções. Já a segunda parte do livro, intitulada “Experiências e análises”, aglutina um conjunto de ensaios que traz relatos e discussão sobre questões estratégicas abordadas por ativistas e lideranças de diferentes iniciativas que podem servir de inspiração prática e crítica sobre como podemos nos apropriar de tecnologias visando um horizonte de autonomia e liberdades.

Em seu artigo, Georgia Nicolau apresenta a ideia do Lab Santista, que a época ainda era uma ideia, e que hoje está em seu processo de consolidação, com a nova sede, e apresenta uma das grandes fontes de inspiração para o Lab, que são os Laboratórios Cidadãos, discutindo o percurso que hoje alguns pesquisadores e ativistas chamam de cultura digital brasileira, passando pelas políticas culturais da gestão de Gilberto Gil e Juca Ferreira até a in​​​​​​dos laboratórios cidadãos. Além da Georgia, a publicação reúne artigos de parceiros do Instituto Procomum como a jornalista Marina Pita, o pesquisador Leonardo Germani,André Lemos, Hentique Parra Parra e Ricardo Poppi, além dos próprios organizadores, Sivaldo e João Mehl.

Leia o texto de Georgia Nicolau completo:

CONSTRUÇÃO DE ESPAÇOS DE AUTONOMIA, COLABORAÇÃO E POLÍTICA

Georgia Haddad Nicolau

O início

Ao pensar sobre o Lab Santista, a primeira imagem que me vem são as crianças brincando do lado de fora. O Lab Santista tem uma garagem viva fora do prédio, um lugar com cadeiras, mesas, árvores, espreguiçadeiras e gramado. No portão, um mural feito de tinta de giz faz uma pergunta: qual é seu sonho? Ao lado, outra pergunta: o que você gostaria que este espaço fosse? Dentro, em suas paredes laterais, é possível enxergar um canteiro de flores e trepadeiras, além de um mural com as regras de convivência e a programação do mês. Grande parte desta programação é autogestionada, ou seja, proposta, articulada e executada pelos vários núcleos e comunidades que compõem o Lab. O que falar de seu funcionamento? Lá há encontros permanentes de dança, reparo de eletrônicos, conserto de bicicletas, crochê, tarô, oficina de microeletrônica com arduínos, grafite, permacultura, plantas medicinais, cineclube, clube de costura, marcenaria, círculo de cuidado e autocuidado, rodas de leitura e também reuniões regulares da associação local dos cortiços. Isto sem contar as festividades e eventos promovidos pela comunidade, o banco comunitário, a biblioteca, a horta comunitária e o espaço compartilhado de trabalho.

Como se percebe, eu poderia seguir descrevendo o Lab Santista por várias páginas. Mas a verdade é que ele ainda não existe. Pelo menos, não deste modo como o descrevi. O Lab Santista é um Lab em construção, que existe desde 2016 e cuja atividade primeira foi o Labirinto 1, um processo que aconteceu na cidade de Santos, iniciado pelo Instituto Procomum, instituição da qual sou cofundadora e uma das diretoras. Voltarei a falar do Lab Santista e do Instituto, mas por ora, vale saber que estamos, neste momento, em vias de conseguir um espaço físico. Até então, o Lab vem sendo uma rede de pessoas e um articulador de iniciativas cidadãs no território da Baixada Santista.

* DOI: 10.24328/2017/5473.004/08

( 1 Disponível em: <http://labirinto.procomum.org/>.)

No entanto, o Lab imaginário que descrevi e sonho é uma mistura de espa- ços e lugares dos quais fiz parte e de outros, que me encantaram. Destes, pode- ria citar alguns no Brasil, como a Casa da Cultura Digital, o Garoa Hackerspace, o Terreiro Coco de Umbigada, o Ponto de Cultura Tainã e o Olabi Makerspace no Brasil. Mas há outros, como La Tabacalera e Media Lab Prado em Madrid, Spektrum, Ausland, Panke e Supermarkt em Berlim; Ice Cairo, no Cairo, IHub em Nairobi, Woelab, em Lomé, The Office em Kigali, Exploratório e Hackers- pace em Bogotá, na Colômbia e a lista poderia seguir 2. Nem todos eles se autointitulam com os mesmos nomes, assim como existem valores e propósitos diversos, mas todos têm em comum serem um espaço de encontro e criatividade. Voltando ao meu percurso para chegar aos Labs cidadãos, gostaria de registrar três encontros importantes. O primeiro, em 2009, com o grupo que construiu a Casa da Cultura Digital (CCD), um coletivo de empresas, coletivos, indivíduos e iniciativas, que compartilhavam um mesmo espaço físico, mais especificamente uma vila de casas no bairro de Santa Cecília, em São Paulo. Na época eu era uma jornalista, produtora e ativista cultural totalmente analógica e, dentre as muitas coisas que aprendi no período em que lá permaneci (2009 a 2011), a experiência do espaço físico compartilhado foi de suma importância. Aquela casa dentro de uma vila na Santa Cecília em que não se precisava de motivos para encontros informais na cozinha, fosse para um café ou umas cervejas, ou para noites de pizza e games, ou em hackatons, possibilitava o germinar de ideias que puderam se tornar realidade e projetos que se materializaram. Exemplos temos de monte, como o Ônibus Hacker e o Festival Baixo Centro. Para mim, em especial aprendi a relativizar o que significa criar espaços abertos. Embora tivéssemos o desejo, não conseguimos criar uma relação com a comunidade do entorno da casa. Ou seja, ainda que nosso laboratório se conectasse com outros territórios e comunidades, muitos deles virtuais, o mesmo não acontecia com o território onde estávamos situados. Ainda assim, a CCD transcendeu seu espaço físico e se tornou uma experiência, um espaço- -tempo para muitos de nós.

(2 Para um mapa global de espaços de inovação e criatividade acesse: <http://anansegroup.com/mapping.html>.)

Em 2012, ocasião em que fui morar em Berlim, outro encontro importante: conheci Geraldine de Bastion, alemã, e Tatiana Bazzichelli, italiana. Tatiana é pesquisadora, feminista e hacker atualmente ligada ao Disruption Network Lab, mas na época era a curadora do Festival Transmediale, 3 um dos principais fes- tivais de arte e tecnologia do mundo. Construímos juntas uma rede chamada ReSource Transmedial Culture Berlin4, uma plataforma distribuída, voltada para a investigação teórica e prática sobre o significado e as práticas da produção artística em rede, a lógica hacker e a construção colaborativa da arte. Essa etno- grafia de rede vinha sendo testada por ela desde a década de 90 com a ajuda de hackers e autonomistas italianos. Como ela conta em um texto do livro come- morativo dos 30 anos do festival Transmediale, o objetivo curatorial por trás da conceituação do ReSource Transmedial Culture Berlin era convergir os fluxos interdisciplinares, abrindo o programa do festival para as práticas artísticas, políticas, econômicas e corporais. Aplicando uma perspectiva pós-digital sobre a construção de uma rede, o “recurso” que o festival queria oferecer era a imaginação e a criação de contextos de compartilhamento, intercâmbio e discussão envolvendo hackers, ativistas, artistas, produtores culturais, acadêmicos e pesquisadores, queers, pensadores e performers de pornografia, bem como espaços físicos – a complexa diversidade da cena livre e independente de Berlim. (BISHOP, GANSING, PARIKKA, WILK, 2016. p.152, Tradução da autora)

Com Tatiana aprendi que a prática curatorial e artística não deveria de maneira alguma estar apartada dos movimentos políticos e do dia-a-dia de uma cidade como Berlim, especialmente por ser ali um lugar de muitas iniciativas in- dependentes, como as que fizeram parte da rede resource. O desafio seria tornar possível um diálogo entre um festival internacional e anual do porte do Trans- mediale, que agrega uma comunidade internacional todo janeiro em Berlim há trinta anos, com os hackers, ativistas e artistas locais. Neste trabalho conjunto pude conhecer uma série de espaços e iniciativas trabalhando nas bordas do pensamento e da ação artística, científica e política, e entender a importância desse ecossistema de espaços físicos – e, mais que isso, pude ter uma medida da importância da troca entre eles, o poder público local e os atores maiores, como o festival Transmediale. Um dos produtos desse projeto foi a série de entrevistas chamadas de resource chats, quando entrevistamos gestores, artistas e ativistas da cena independente de Berlim para entender suas práticas, seus anseios e angústias, sua relação com a cidade e com o festival. As conversas evidenciaram os desafios de se atuar em lugares híbridos como arte, tecnologia e política, principalmente na narrativa e na conversa com o poder público.

(3 -Disponível em: <https://transmediale.de/>. 4 Disponível em: <https://transmediale.de/content/network>.)

Já Geraldine é uma ativista da cultura digital e uma das curadoras da conferência Re:publica, uma das maiores de tecnologia da Europa. Quando a conheci, em 2012, ela já havia morado na Ásia e visitado vários países da África em seus trabalhos como consultora de direitos digitais e políticas públicas para organizações não governamentais e alguns órgãos do governo alemão, como por exemplo, o órgão de cooperação para o desenvolvimento econômico. Nessa ocasião, ela manifestou seu desejo de realizar um encontro de Labs e Hubs de inovação africanos e asiáticos no Re:publica, já que estes eram um fenômeno crescente, principalmente no leste africano. Convidou-me para indicar alguns Labs brasileiros. Foi a partir desse encontro organizado por ela em 2013 que surgiu a rede Global Innovation Gathering (GIG)5, que este ano de 2017 completou cinco anos e reúne mais de 100 espaços de inovação de mais de 30 países, com foco especial no Sul Global. De um hackerspace na Palestina a um espaço de ciência cidadã na Indonésia, a um Makerspace no Rio de Janei- ro, a GIG, como toda rede, é feita por pessoas, mas neste caso a maioria é de alguma maneira ligada a um espaço físico. Alguns deles se utilizam do espaço para oferecer acesso à internet, espaço compartilhado de trabalho, realizar eventos, desenvolver protótipos e negócios, criar aceleradoras e incubadoras. Mesmo que para muitos o foco final seja o desenvolvimento de negócios, seu “efeito colateral” é a produção de cidadania e pertencimento. De tudo, o que me chama atenção é o fato de que em países com pouca ou nenhuma liberdade democrática, onde o conceito de espaço público é praticamente inexistente, esses Labs exercem um papel de acesso ao conhecimento, de conexão com o mundo e de exercício da autonomia e da criatividade. Uma combinação bastante poderosa.

O terceiro encontro. Em 2013 passei a fazer parte da equipe do Ministério da Cultura do Brasil. Entre 2013 e 2016 dirigi a área de Gestão, Empreendedorismo e Inovação da Secretaria de Economia Criativa do MinC. Muito da minha satis- fação em estar no MinC estava ligada ao papel que a gestão e o pensamento do Ministro Gilberto Gil tiveram na minha formação pessoal. O início de sua gestão, em 2003, coincide com meus últimos anos de faculdade, quando já era produtora cultural e fazia parte da equipe que organizava a semana de arte da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O ministro tropicalista, seus discursos e as políticas construídas sob sua gestão trouxeram uma base filosófica e um sonho de Brasil que seguem traduzindo muito do que eu acredito. A ideia de que não há cisão entre ancestralidade e tecnologia. De que nossa tradição e diversidade cultural produzem inovação todos os dias, ou muitas vezes são a própria inovação. Que nossa sabedoria e desigualdade social, econômica e territorial nos forçou a produzir tecnologias sociais capazes de criar outros modelos de desenvolvimento. Como escreveu Felipe Fonseca em artigo publicado na revista do IBICT 6:

Gil transformou o Ministério da Cultura, pela primeira e talvez única vez, em um indutor de um imaginário contemporâneo, cosmopolita e includente, a par- tir de uma visão ampla de cultura. (…) Mais do que isso, o ministro em pessoa in- seria-se como representante da busca brasileira de uma síntese entre os extremos da tecnofobia e da tecnoutopia, a partir da compreensão de que as tecnologias estão cada vez mais inseridas no imaginário cultural. (FONSECA, 2017, pág 3)

(5 Disponível em: <http://www.globalinnovationgathering.com/>.)

Seguindo esse caminho, a gestão Gil inaugurou a ação programática de pensar a cultura digital nas políticas culturais, mais especificamente a partir do programa dos Pontos de Cultura. Pensar uma rede distribuída e preexistente de espaços e iniciativas culturais pelo país, que receberiam kits digitais acompanhados de oficinas de conhecimentos livres, segue sendo bastante revolucionário. Desse encontro de gestores públicos, ativistas, intelectuais e hackers, flagrou-se a narrativa de uma cultura digital brasileira que, a meu ver, foi e continua sendo vanguarda, principalmente se pensarmos o contexto político atual.

Ainda com Felipe Fonseca, foi ali que se puderam aproximar o vocabulário e as práticas hackers e de mídia tática, que chegavam com forte influência europeia, urbana, branca e de classe média; com as expectativas, receios e aspirações de movimentos sociais, culturas populares e tradicionais do Brasil profundo. A narrativa dessa tensão, bem como sua incorporação a partir de episódios anteriores de nossa história cultural (como a antropofagia modernista e o tropicalismo dos anos 1960, a pedagogia de Paulo Freire e a antropologia de Viveiros de Castro), foram alguns dos elementos fundamentais para naquele momento se começar a falar nas par- ticularidades brasileiras de uma cultura digital. (FONSECA, 2017, pág 4)

(6 Para um bom apanhado sobre a discussão de labs no Brasil, este artigo do pesquisador Felipe Fonseca articula referências históricas importantes, muitas delas produzidas por ele mesmo ao longo dos anos. Disponível em: <revista.ibict.br/liinc/article/view/3903>.)

Em sendo agente e produto dessa história, me vi diante do desafio de pensar a inovação e a economia criativa – como pedia meu locus institucional – a partir do Brasil que havíamos sonhado até ali 7 e das políticas públicas de cultura. Nossa diretoria fez duas parcerias que valem ser destacadas, com a Secretaria-Geral Ibero-Americana (SEGIB), no âmbito do programa Inovação Cidadã e com o INCITI – Pesquisa e Inovação para as Cidades, uma rede de pesquisa- dores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) com quem realizamos o programa Labceus – Laboratórios de Cidades Sensitivas,8 que no ano passado foi reconhecido pela ONU-Habitat como uma solução urbana.

Com a parceria entre o MinC e a SEGIB, realizamos a segunda edição do LA- BIC – Laboratório Ibero-Americano de Inovação Cidadã, que aconteceu no Rio de Janeiro em 2015. O LABIC é uma metodologia que a SEGIB desenvolveu com os parceiros do Medialab-Prado e que consiste em juntar pessoas de distintos saberes e fazeres da Ibero-América por duas semanas para desenvolverem projetos de forma colaborativa. Este ano foi realizada a terceira edição na Colômbia e segue sendo um formato em que acredito, principalmente pela construção de redes internacionais de trocas sobre inovação cidadã e cultura livre. No entanto, o formato tem algumas limitações, sendo a principal delas a questão do vínculo com o território onde o laboratório temporário se instala.

Com o INCITI promovemos um piloto de ocupação de centros culturais do Governo Federal – sob o nome de Centros de Esporte e Artes Unificados – em 10 cidades brasileiras a partir do raciocínio de laboratórios comunitários e experimentais. O Labceus – Laboratórios de Cidades Sensitivas produziu duas chamadas públicas de ocupação, cuja abertura permitiu projetos tão diversos quanto permacultura, produção de games em software livre, confecção de tambores e uma experiência de rádio comunitária.

(7 Escrevi mais sobre isso no artigo “O desafio de uma política de economia criativa aberta e em rede”, que faz parte do livro De Baixo Para Cima. (Disponível em: <http://www.livro.debaixo- paracima.com.br/o-desafio-de-uma-politica-de-economia-criativa-aberta-e-em-rede/>.) 8 Disponível em: <http://culturadigital.br/labceus/>.)

Meu primeiro contato com o termo inovação cidadã aconteceu com a leitura dos documentos colaborativos 9 produzidos pela SEGIB que foram entregues aos chefes de estado na Cúpula Ibero-Americana do Panamá em 2013 e depois resultaram em outras cartas e resoluções sobre laboratórios cidadãos e recomendações sobre políticas públicas. Em um dos documentos encontramos a seguinte definição de laboratórios cidadãos:

Os laboratórios cidadãos são espaços nos quais pessoas com diferentes conhecimentos e diferentes graus de especialização se reúnem para desenvolver projetos conjuntos. São espaços que exploram as formas de experimentação e de aprendizagem colaborativa que surgiram a partir das redes digitais para pro- mover processos de inovação cidadã. Sob o ponto de vista do processo de IC, estes projetos trabalhados e criados em laboratórios cidadãos têm a característica de procurar uma transformação social que contribua para o desenvolvimento cultural, social e econômico dos nossos países. (Carta aos Chefes de Estado Ibero-Americanos, SEGIB, autoria coletiva, 2014 pág 4).

(9 Todos os documentos oficiais da Secretaria Geral Ibero-Americana sobre Inovação Cidadã na íntegra: http://www.ciudadania20.org/pt-pt/#latest-work>.)

Como costuma dizer meu parceiro de trabalho e cofundador do Instituto Procomum (IP), Rodrigo Savazoni: “um laboratório cidadão é uma rede de pessoas, iniciativas e infraestruturas, articuladas para a produção de bens comuns, em um determinado território”. Até 2016 tinha passado tangencialmente pelo conceito de Comum. Foi a partir das provocações do Rodrigo e da fundação do Instituto Procomum que comecei a me debruçar com mais afinco sobre o significado e a relação do comum 10 com o que queremos fazer no Lab Santista. Na verdade os comuns vêm sendo estudados há décadas em várias áreas do conhecimento, como mostra Bianca Santana em seu artigo Mulheres Negras: um convite ancestral a compreender o comum, pelo Bem Viver, que está ainda no prelo. A partir das leituras e das experiências com o Comum percebo como issofaz sentido para explicar o incômodo de estarmos vivendo em uma época de falências generalizadas de ideais e de projetos políticos e econômicos. Através do Comum foi possível defender as ideias que acredito sem usar oposições: a na- tureza, a ancestralidade, a tradição, o cuidado, as artes, a cultura, a democracia, o feminismo, a espiritualidade, as culturas africanas, indígenas e orientais, a liberdade de gênero, a vida em coletivo. Como escreveu Rodrigo Savazoni, em artigo ainda no prelo, “o comum é um conceito, sobretudo, político. Afinal, ele diz respeito à forma como nós nos organizamos em benefício de nossas coletivi- dades.”11 Ou ainda, em um texto publicado pela Heinrich Böll Stiftung12:recursos que podem ser coletivamente usados constituem a estrutura inerente a uma sociedade. Nesse sentido, recursos compartilhados constituem a infraes- trutura, a herança, a identidade e a cultura de uma comunidade ou nação.Tra- dução da autora (HELFRICH, KUHLEN, SACHS, SIEFKES, 2010, p.9)

O Instituto Procomum nasce em meio a estas reflexões e práticas a partir do Comum e para o Comum. Nasce questionando sua própria institucionalidade, acreditando na cidadania e na democracia como valores fundamentais -– que mais do que nunca precisam ser reforçados – no compartilhamento, na colaboração, na cultura de abertura e na experimentação como processos de invenção de futuros. Se isso pode parecer intangível, é porque também estamos falando de projeção de desejos e sonhos. O Lab Santista, no entanto, é real e existe. E a partir do Circuito LABxS,13 projeto construído através de uma chamada pública feita no início de 2017, que selecionou 13 iniciativas cidadãs na Baixada Santista, ficou evidente que nosso problema não é a falta de iniciativas, ideias ou pessoas dispostas a construir alternativas reais de sobrevivência e existência, mas, ao contrário, sua abundância.

Pedimos licença para este caminho, saudando todas e todos que antes vie- ram, o que já existe e o que virá depois. Acreditamos na coexistência, no poder do “e” ao invés do “ou”. Também no bem viver como uma possibilidade real. Como disse o pesquisador boliviano Gustavo Soto, em entrevista à ativista alemã Silke Helfrich 14: bem viver é uma proposta destinada a tornar visíveis e expressos aspectos da realidade que são ignorados pelo paradigma dominante. É uma proposta de uma perspectiva radical e espiritual da ecologia e é logicamente incompatível com o desenvolvimento e a industrialização. Ele fala da possibilidade de viver em comum, para o qual o próprio conceito de ‘desenvolvimento’ não é apenas insuficiente, mas equivocado. (BOLLIER, HELFRICH, 2012, p. 277, Tradução da autora)

(10  -O site do Instituto Procomum (procomum.org) traz alguns caminhos para entendermos o comum como esta: É formado pelos bens comuns em si (o planeta, o patrimônio sócio-ambiental, o corpo, o urbano e o digital) somados à gestão desses bens por comunidades que se autogover- nam criando procedimentos e regras que garantam o usufruto entre todas e todos – e impeçam a apropriação do bem por um ou alguns, o chamado cercamento.)

(11 Artigo ainda no prelo. 12 Disponível em: <https://www.boell.de/en/content/commons-prosperity-sharing>.)

(13 Disponível em: <https://www.procomum.org/2017/05/02/o-circuito-labxs-lab-santista-chega–ao-fim-hora-de-celebrar/>.)

(14 Disponível em: <http://wealthofthecommons.org/essay/el-buen-vivir-and-commons-conversation-between-gustavo-soto-santiesteban-and-silke-helfrich>.)

Referências

BISHOP, GANSING, PARIKKA, WILK, 2016 across & beyond- a transmediale readeron Post-digital Practices, Concepts, and Institutions FONSECA, 2017 Dos laboratórios experimentais à inovação cidadã SEGIB 2014 Laboratorios ciudadanos: espacios para la innovación ciudadana1 XXIV Cumbre Iberoamericana de Jefas y Jefes de Estado y de Gobierno Vera- cruz – http://ciudadania20.org/labsciudadanos/ HELFRICH, KUHLEN, SACHS, SIEFKES, 2010, The Commons – Prosperity by Sharing BOLLIER, HELFRICH, 2012, The Wealth of the Commons: A World Beyond Marketand State.

To read the english version, click here.