Por Felix Weth, fundador do Fairmondo.de *

Tradução: Georgia Nicolau, Instituto Procomum

Como construir uma empresa resistente à corrupção? Uma empresa que mesmo que cresça e se fortaleça financeiramente  permaneça fiel aos seus valores e à sua missão? Estas foram as questões originais que orientaram o desenvolvimento do modelo que denominamos “Coop 2.0”.

A empresa que fundamos para colocar este modelo em prática é o mercado on-line Fairmondo. Ao escolher atuar neste setor empresarial,  encaramos um mercado dominado por enormes e poderosas corporações que não são exatamente  conhecidas por suas práticas sustentáveis. Devido ao fenômeno de Efeito de Rede, o setor dos mercados online tende a favorecer as práticas monopolistas das grandes plataformas online. Isto, combinado com os modelos de negócios agressivos das corporações para atender aos seus investidores, produz um ambiente onde quem sobrevive são os grandes jogadores de mercado, normalmente inclinados a comportamentos socialmente nocivos como por exemplo condições opressivas para os trabalhadores, pressão excessiva sobre pequenos produtores e comerciantes, abuso do uso de dados individuais, ou a promoção do consumo não responsável.

O criador da plataforma cooperativa Fairmondo, Felix Weth

O criador da plataforma cooperativa Fairmondo, Felix Weth

É por isso que, resgatando a pergunta original do artigo, é particularmente importante ter empresas com princípios fortes e democraticamente responsáveis (accountable). Ao olhar para o conjunto de modelos de negócios existentes, o modelo cooperativo se destaca como um modelo possível de criação de empresas responsáveis e democráticas. Embora uma análise mais atenta demonstre que nem todas as cooperativas compartilham destas características. As cooperativas maiores, em particular, parecem ter-se desviado da dos princípios originais cooperativistas  [https://ica.coop/en/what-co-operative] e acabam muitas vezes comportando-se como as corporações clássicas.  

Além disso, o conceito original de cooperativa enfatiza as noções de “auto-ajuda” e “benefícios de membro”, uma cooperativa sendo uma empresa projetada para servir a seus membros. Essas noções ainda foram destaque no Guia de Princípios Cooperativos publicado em 2015 pela Aliança Internacional de Cooperativas.  [https://ica.coop/en/blueprintthemes/identity/guidancenotes]

Embora tais valores sejam certamente justificáveis e aplicáveis a muitas cooperativas, não era exatamente o que buscavamos. Queríamos criar um negócio especificamente concebido para beneficiar toda a sociedade, ao invés de um grupo limitado de membros. Em nosso modelo, a associação deve ser apenas um meio de envolver e exercitar o controle democrático para qualquer uma ou um que quiser.

Outro desafio específico foi desenvolver um modelo que funcione para fazer negócios em um setor tão competitivo quanto o do comércio eletrônico. Em um mercado que ainda é dominado pelo modelo clássico de tech-start-up-venture-capital, e com os novos modelos de negócio sendo constantemente empurrados para o mercado para perseguir o velho objetivo de uma saída rápida para investidores e fundadores, agilidade e capacidade de tomar decisões rápidas é crucial. E o modelo clássico das cooperativas não foi conhecido para ser particularmente ágil ou flexível.

Todas estas foram as razões pelas quais desenvolvemos um modelo específico de uma cooperativa – que nós chamamos corajosamente de Coop 2.0. É um modelo para as empresas que procuram manifestar responsabilidade para com toda a sociedade, não apenas por meio de palavras ou pela boa vontade dos responsáveis, mas pela sua própria estrutura.

Dito isto, o modelo Coop 2.0 foi desenvolvido “em movimento”. Ou seja, não havia um plano original de usar a estrutura legal de uma cooperativa, mas o modelo acabou aparecendo em nossa pesquisa como o mais inteligente e acessível. Quando colocamos o modelo em termos jurídicos concretos, fomos obrigados a utilizar a estrutura fornecida pela lei alemã, que introduziu algumas restrições específicas. De qualquer maneira, nosso modelo Coop 2.0 certamente não é perfeito ou final, mas sim uma experiência contínua, aberta e desejosa de ser desenvolvida ainda mais.

Dito isto, após cinco anos de funcionamento do Fairmondo e participando de muitas discussões sobre estas questões, ainda estou convencido de que fizemos muitas escolhas acertadas ao projetar o modelo. Baseado em nossa experiência, a seguir listo sete atributos que, a meu ver, diferenciam uma cooperativa 2.0 das cooperativas clássicas (embora existam casos em que outras cooperativas aplicaram modelos semelhantes):

  1. Princípios básicos de justiça protegidos pelo estatuto.

O compromisso com a justiça não deve depender das boas intenções dos fundadores, administradores ou membros, mas deve ser juridicamente vinculado ao estatuto ou regulamento da cooperativa. Para evitar as armadilhas que vêm com uma definição genérica de “justo”, escolhemos na Fairmondo uma abordagem mais procedimental: a cooperativa deve comportar-se de forma justa internamente (em relação aos membros e funcionários)  e externamente (com os parceiros, clientes, etc.) – e o que isso significa em casos individuais deve ser publicado e tornado disponível para discussões online.

Ainda assim, os nossos estatutos incluem 12 disposições específicas, como por exemplo uma relação salarial máxima de 1 x 3 (o salário mais alto pode ser no máximo três vezes o mais baixo); ou o dever de compartilhar abertamente todo o conhecimento criado pela cooperativa sob uma licença adequada (de código aberto). Todos estes princípios, bem como as outras disposições que definem elementos centrais do modelo Coop 2.0, são protegidas por uma cláusula 9/10: Só podem ser alterados se obtiverem 90 por cento ou mais votos na assembleia geral.

  1. Responsabilidade (accountability) democrática com todas as partes (stakeholders) interessadas.

É aqui que entra o modelo jurídico de uma cooperativa, pois o mesmo garante o princípio básico de um membro, um voto – ninguém pode comprar votos. Além disso, para uma cooperativa 2.0 é crucial garantir que a adesão seja verdadeiramente aberta a todas as partes interessadas. Qualquer pessoa que se sinta afetada pelas atividades do negócio deve ser capaz de mantê-lo em conta (hold it to account).

Na Fairmondo, definimos o valor de uma ação a 10 euros para manter o limiar baixo, mesmo para pessoas com menor renda. Na prática, porém, os mais de 2000 membros da cooperativa Fairmondo investiram uma média de cerca de 300 euros por sócio, enquanto que aproximadamente metade dos nossos membros se juntou com o montante mínimo.

  1. Evitando a ganância.

Ninguém deveria ter uma grande participação financeira em uma cooperativa 2.0. Na Fairmondo, limitamos o máximo de quantidade de ações que qualquer pessoa pode deter a 25.000 euros. Continua sendo uma quantidade grande de dinheiro, mas provavelmente não o suficiente para motivar alguém a iniciar grandes conspirações para tirar proveito do negócio.

Igualmente importante é que o valor de uma ação é definido nos estatutos: ele não muda com o valor da empresa. Isso tira o estímulo de crescer o volume de negócios (faturamento) indiscriminadamente e injustificadamente. Desse modo, esse atributo torna as cooperativas 2.0  “empresas pós-crescimento” que podem crescer, se houver razões sensatas para isso, mas não têm nenhuma necessidade desesperada  para tanto. Evita também todo o jogo especulativo dos mercados financeiros que vêm junto com o modelo clássico corporativo. Esta vantagem é comum a todas as cooperativas, desde que tenham um valor fixo das ações.

Juntamente com a faixa salarial limitada, isso significa que as pessoas, cujo objetivo na vida seja acumular grandes quantidades de dinheiro, simplesmente não têm nenhuma razão para se envolver no negócio. Um modelo que não inspira ganância ajuda a evitar a política dos gananciosos.

  1. Transparência radical

A transparência é essencial para a responsabilidade. Eu posso prometer tudo, mas o que conta é o que eu realmente faço. Grande parte das atividade dos negócios de hoje é sobre esconder e manipular informações. Há muita conversa sobre transparência, mas as práticas e os regulamentos reais são muitas vezes diluídos para servir ao modelo de negócio extrativista das empresas, que pede por falta de transparência.

Temos de inverter esta realidade, se quisermos seriamente trabalhar para uma economia sustentável. Na Fairmondo, estamos obrigados a publicar qualquer informação que possamos publicar legalmente. Publicamos até nossa conta bancária – online e em tempo real. Curiosamente, a transparência real também promove a proteção de dados uma vez que as pessoas podem verificar de forma confiável o que está sendo feito com seus dados e o que não está.

  1. Distribuição justa dos lucros

O modelo cooperativo 2.0 permite a distribuição de dividendos, mas define claramente o que deve ser feito quando ocorre um excedente. Isso ocorre para evitar discussões centradas em interesses pessoais sobre a questão. No caso da Fairmondo, o modelo garante que o excedente vá para muitos: 25% são distribuídos em ações para os membros, e  ninguém pode manter um grande número de ações; 25% são distribuídos através de pontos, os “Fair Founding Points”, que qualquer membro pode coletar quando colabora ativamente para que a cooperativa seja bem sucedida. Todo mundo recebe o mesmo número de pontos por hora de trabalho, ou por comprar ações na fase inicial, de alto risco; 25% do excedente é doado para organizações sem fins lucrativos, e os membros/usuários decidem quais. Os últimos 25% são utilizados para desenvolver a cooperativa e seu processo de internacionalização.

  1. Participação democrática dos trabalhadores

O modelo coop 2.0 não prescreve nenhum modelo de gestão em particular. Requer apenas uma coisa: o conselho administrativo é eleito pelos funcionários. Dessa maneira, os funcionários podem trocar o conselho que ignore seus anseios ou flerte com práticas autoritárias. Este elemento visa incentivar uma cultura de respeito mútuo, comunicação e participação. O conselho de administração é portanto incentivado a ter certeza de que os funcionários entendam as decisões estratégicas e no caso de a equipe assim o desejar, escolher uma estrutura de governança que garanta a participação, como por exemplo a Holocracia.  

  1. A magia da multidão

O modelo coop 2.0 traz algumas restrições para uma empresa. Mas também traz vantagens sobre os modelos clássicos. Uma Coop 2.0 pode se envolver com “a multidão” muito mais autenticamente, e cria confiança muito mais facilmente. Na Fairmondo, utilizamos com sucesso ferramentas como financiamento coletivo (crowdfunding) e crowdsourcing para começar. Nós também publicamos nosso código fonte, tornando possível que desenvolvedores de qualquer lugar pudessem ajudar a desenvolver o nosso software. Em nossa experiência como um mercado online que possuí apenas uma limitada influência sobre o comportamento de fornecedores e compradores, nós preferimos nos preocupar com excesso de confiança* (não sei se entendi essa parte) do que sobre como podemos criar confiança.

A longo prazo, creio que as empresas que permitirem aos clientes e outras partes interessadas compartilharem a propriedade da empresa (co-own) de maneira significativa, vão proporcionar  melhores produtos em melhores condições. Dado que muito do da competição hoje em dia gira em torno de minimizar preços falsos externalizando ou escondendo custos, um negócio transparente e democrático pode reivindicar uma vantagem competitiva decisiva, oferecendo aos clientes uma escolha baseada em informações reais.

Sigo convencido de que o modelo Coop 2.0 pode ser uma ferramenta importante para promover a democracia e sustentabilidade real para nossas economias. Em especial na seara das plataformas e mercados online é  importante ter muito cuidado com a forma como estruturamos nossas empresas. Este desafio vem sendo escolhido por um número crescente de startups e organizações muitas delas reunidas em um movimento chamado de Cooperativismo de Plataforma. Na minha opinião, o modelo Coop 2.0 pode ser muito útil para desenvolver cooperativas de plataforma e outros negócios sociais que desejam preservar sua visão e seus princípios ao longo das fases de crescimento e mesmo com mudanças de condições.

Continua sendo um desafio fazer cooperativas 2.0 como Fairmondo um sucesso, já que estamos competindo com corporações poderosas que dominam o mercado. A parte boa é que não estamos sozinhos. Cooperação é a chave para o sucesso para empresas orientadas para o futuro que se atrevem a usar novos modelos. E se conseguirmos  continuar se divertindo fazendo o que estamos fazendo, estou certo de que vamos finalmente superar o modelo ultrapassado de corporações extrativistas.
*Felix é o fundador da Fairmondo, um mercado online alemão de propriedade de seus usuários. É formado em Ciências Políticas, Filosofia, Economia, Políticas Públicas e Administração. Como um ativista anticorrupção, ele viajou por vários países viu como a corrupção priva especialmente os jovens de oportunidades de vida. Para ele, essa experiência destacou as deficiências estruturais de nossos sistemas econômicos e políticos, também e em particular nos países ocidentais. Para enfrentar esse desafio, ele desenvolveu a idéia de Fairmondo como uma cooperativa transparente, baseada na web e resistente à corrupção, que poderia servir como modelo para outras empresas.