O Re:publica tem sido, nos últimos dez anos, um encontro extremamente influente para apontar tendências para o mundo contemporâneo, com forte ênfase nas questões digitais. Georgia Nicolau participou das últimas cinco edições do evento e neste seu primeiro ano como diretora do Instituto Procomum coordenou a mesa “Creating Organization of/the Commons”, com a participação de Ricardo Ruiz, do Brasil e os europeus Ela Kagel e Stephen Kovats. Neste texto, ela compartilha conosco um relato da experiência.

A descrição da mesa era:

“Novos desafios demandam novas instituições e formas de organização. Como a sociedade civil repensa suas formas de representação e organização? Quais novos modelos estão emergindo? Nesta apresentação, nós queremos discutir a urgência de reinventar instituições a partir da perspectiva da sociedade civil.”

Leiam o relato:

“Eu comecei fazendo uma apresentação breve sobre quem sou eu e sobre o Instituto Procomum. Falei que nascemos para inclusive nos questionar sobre a necessidade de existirmos. Falei sobre instituições e extituições. Falei sobre o LABxS (Lab Santista), sobre as ações e os conceitos que nos norteiam e falei sobre o org.lab e compartilhei algumas das nossas principais indagações: o que é ser uma organização que consiga responder aos desafios deste século? o que está dentro e o que está fora de uma organização para o comum? Como pensar algo que seja dinâmico e ao mesmo tempo sólido?

A segunda a fazer intervenção foi a Ela Kagel. A Ela é uma produtora cultural e ativista da cultura digital. Tem uma trajetória com a qual me identifico, porque consegue reunir as artes, a cultura, a tecnologia e as questões sociais em seu trabalho. Ela dirige um espaço chamado Supermarkt, que quando foi constituído era de fato em um supermercado abandonado. Ela trouxe em sua intervenção um contexto mais geral sobre o Comum. Fez  um resgate histórico dizendo que embora pareça algo utópico o comum sempre existiu. Ela trouxe o exemplo da cidade de Boston, onde o mapa de 1769 mostra a área comum da cidade chamada de Commons, espaço de convivência e de cultivo coletivo de animais e plantas. Ela trouxe também um contraponto ao texto clássico A Tragédia dos Comuns, do biólogo Garrett Hardin, contrapondo-o  aos argumentos da cientista política e ganhadora do prêmio nobel de economia Elinor Ostrom e seus oito princípios de como administrar um comum. A fala da Ela reforçou a ideia de que não devemos pensar nos comuns como algo utópico, mas como uma alternativa concreta e urgente, especialmente os commons digitais (que ela trouxe o questionamento se é que existe essa separação hoje em dia).

Confira a apresentação da Ela aqui: https://docs.google.com/presentation/d/1jYaC6LpCxnJNvZ4-RT9ou6a2K17V7hTYlUyBT87T4xo/edit#slide=id.p20

Na sequência o desenvolvedor e pesquisador Ricardo Ruiz trouxe uma perspectiva dos comuns a partir das práticas dos terreiros afro-brasileiros. Ruiz é filho de santo da casa Ilê Axé Oxum Karê da Iyalorixá Mãe Beth de Oxum. Ruiz trouxe imagens dos rituais do Candomblé que ilustraram a sua fala sobre ancestralidade. Contou que por muitos anos a prática das religiões afro-brasileiras foram proibidas por lei no Brasil e que os rituais, no entanto, se mantiveram vivos e compartilhados. Trouxe a perspectiva de que se trata de uma questão de fazer as coisas como sempre foram feitas. E de que os rituais do compartilhamento passam todos pela questão do alimento. O ritual é o básico: nos alimentarmos uns aos outros. Trouxe a perspectiva da criação das plantas e animais e do complexo ecossistema que o terreiro foi tomando enquanto lugar de acesso ao conhecimento: rádio comunitária, local de festa e brincadeiras populares, como o coco de umbigada e restaurante – aos finais de semana o terreiro serve comida afro-brasileira. Também falou do terreiro como laboratório – lá eles desenvolveram, por exemplo, o game Contos de Ifá, baseado na mitologia dos orixás.

Ruiz fez a seguinte pergunta: estamos prontos para mudar  de paradigma?

O arquiteto e entusiasta das tecnologias livres Stephen Kovats finalizou a primeira rodada de apresentações. Kovats foi curador do festival transmediale e há alguns anos fundou a agência de cultura livre r0g media. Ele vem trabalhando no Sudão do Sul, país mais novo do mundo, que surgiu a partir da divisão com Sudão e que está em guerra há pelo menos cinquenta anos. Junto com as comunidades locais, a r0g media ajudou a fundar o Jhub, um lab comunitário na capital, Juba. Kovats mostrou algumas fotos das atividades e oficinas que eles vêm fazendo, e mostrou também o guia de tecnologias livres que eles desenvolveram, e que vêm servindo como um auxílio para a criação de outros centros, como o CDC, centro de desenvolvimento comunitário, que hoje fica em um campo de refugiados de sudaneses do sul em Uganda. Kovats destacou que as organizações que têm como missão o acesso ao conhecimento e a formação de redes precisam de transparência. A partir de uma das perguntas da plateia, Kovats trouxe também as limitações de estarem atuando em um local onde o governo é uma grande incógnita, devido à instabilidade política.

Trabalhei para que as intervenções fossem curtas para que fosse possível ter tempo de interação com o público. Tivemos quase 40 minutos de debate, com várias perguntas da plateia. Muitas das falas destacaram o caráter inspirador da mesa. Avalio, por isso, que atingimos nosso objetivo  de provocar uma reflexão sobre os commons em perspectivas bem diversas, teóricas e práticas, envolvendo organizações de naturezas distintas, mas que possuem como questão central a aspiração por outros modos de vida.

Perguntas da plateia

Deixo para nossos leitores as perguntas que surgiram no debate e que podem orientar uma boa discussão também em meios digitais.

– Onde achar mais informações sobre iniciativas sobre o comum? Como fazer um guia de common-oriented institutions?

– Como competir com o mercado? Os commons seriam uma antítese do mercado?

– Um dos meninos da plateia disse que a própria mesa estava sendo um comum. e que ele havia aprendido muito com as trocas e que esperava que ela continuasse.”