O território circunvizinho à antiga Vila de São Vicente, hoje conhecido como Baixada Santista, é uma das mais antigas regiões a testemunhar o lento e gradual processo de chegada, assentamento e produção do corpo do Outro no Brasil.

As antigas histórias de vida que tiveram lugar ao largo do antigo cais do Valongo, bem como as histórias daqueles que ainda depõem no presente desde o interior da Bacia do Mercado, elas remontam ao que transcorre entre nós desde a chegada de Gaspar de Lemos à região, em 1502.

Em bairros como Paquetá, Vila Nova e Vila Mathias, camadas e sobrecamadas da memória local se confundem com camadas e sobrecamadas da própria história nacional. Ademais dos depoimentos e de sua marca propriamente humana, as histórias contidas no próprio dispositivo urbano ao qual nos referimos apresentam versões de fatos porque a cidade, em si, guarda uma linguagem na qual também é possível alfabetizar-se.

Ponderamos que a Vila de São Vicente, cujo nome foi dado em homenagem a São Vicente Mártir e viria a ser a primeira municipalidade do então Brasil-Colônia, pode ser tomada como espécie de grau-zero do país porque testemunha o lento e gradual processo através do qual uma terra se fez Brasil.

Entendemos que um dos eixos fundamentais na ação de retomada desta história passa pelo processo através do qual se fez a escultura do corpo do Outro: no tracejado que fez do Brasil contemporâneo o nosso plano Comum é fundamental a produção deste corpo que lhe testemunha como acervo vivo, como monumento às avessas e documento rasurado.

Ao invocarmos o corpo do Outro, primeiro fazemos referência à genealogia dos milhões de corpos africanos capturados, escravizados e desterrados durante o ciclo da expansão ultramarina europeia, mas também à genealogia dos milhões de ameríndios originários que forçosamente cederam terra e vida à instalação da Colônia.

Mais, fazemos também referência a todos os demais corpos que, em conjunto heterodoxo, definiram uma marca de exterioridade no que diz respeito aos padrões e modos de vida que terminaram por vigir ao longo do nosso pacto civilizatório: fazemos referência às mulheres, aos deficientes, aos loucos, aos errantes e a toda sorte de perfis recalcitrantes em termos de raça, gênero, classe, origem, lucidez e até performance.

São os corpos que vivem há séculos numa interface turbulenta entre a bio e a ‘necropolítica’.

Como pacto civilizatório, entendemos o que Suely Rolnik chamou de ‘antropo-falo-ego-logocentrismo da cultura moderna ocidental’, ou mais diretamente de ‘subjetividade branca’ – em termos gerais, nossa viva herança racial, patriarcal, burguesa, instrumental, centralista, normopata e disciplinada. Entendemos que o corpo do Outro não foi somente objeto de exclusão ao ser posicionado sobre as margens dos direitos formais ou propriamente fora delas: utilizando um termo cunhado por Antonio Negri, entendemos que o corpo do Outro foi objeto de um processo de inclusão diferencial que o usou desde a margem formal do sistema como reserva orgânica cuja força vital ergueu e sustenta o Brasil contemporâneo.

Além disso e não menos importante, o corpo do Outro também é objeto de uma inclusão diferencial quando é demarcado como a presença pré-humana em relação à qual se fixa e distende a trama conceitual que reveste o pacto colonial e pós-colonial como empreitada civilizatória.

Na melhor das hipóteses, é dada alguma visibilidade a este corpo quando ele serve de alegoria nacional. Este estranho paradoxo presente na cidade faz deste corpo uma invisível espinha dorsal, uma estrutura de sustentação necessária que é forçada a uma posição de invisibilidade justificada por um intrincado movimento de validação discursiva.

São os ‘degradados do mundo’ de Frantz Fanon, os ‘condenados da cidade’ de Löic Wacquant e a larga ‘vida Negra’ de Achille Mbembe – ainda que nenhuma destas categorias dê conta da diversidade inerente à tamanha outridade.

Reserva de exterioridade, o corpo do Outro dá justificativa e calado à empreitada colonizadora – mas, ainda que obscurecido, aparece-nos também como reserva de resistência e criação diante das diferentes formas de cinismo e niilismo contemporâneos, diante do possível ocaso da Política tomada à tradicional.

Ao olharmos para a Bacia do Mercado enquanto dispositivo urbano, mas também em sua demografia, acreditamos estar diante de um território que testemunha a produção desta outridade – e aí nos parece ser possível cartografar tanto uma história de degredo quanto histórias de invenção.

Problemas.

O presente projeto pretende promover localmente a genealogia, a arqueologia e a cartografia deste corpo, integrando pensamento contemporâneo, história da região, o domínio e a narrativa das artes e o depoimento encarnado de viventes envolvidos com a resistência contínua na região – procuramos forjar conceitos, sondar práticas instituintes e prototipar tecnologias que sirvam de auspício a uma nova comunalidade ao mesmo tempo em que pretendemos aprofundar compreensões acerca da atualidade do plano Comum. Neste ponto e com este intuito passamos à formulação de três universos de problemas:

PROBLEMAS:

1. Crise conceitual e esgotamento.

Dados (1) a função civilizatória presente em grande parte do nosso universo conceitual e formativo, (2) a sua correlata pobreza perceptiva, (3) a pouco explorada – ou negligenciada – experiência de pensamento e enunciação das culturas tradicionais, originárias e/ou anômalas, (4) a crise de legitimação e/ou o perecimento de grande parte das principais narrativas de resistência, bem como (5) a necessidade de forjar um repertório Comum, ENTÃO quais agenciamentos perceptivos, conceituais e formativos são fundamentais no sentido de permitir e/ou favorecer a produção de um campo autônomo de inteligibilidade e entendimento?

2. Práticas instituintes.

Dados (1) a aparentemente fértil articulação entre mecanismos governamentais, organizações para e supragovernamentais, setores produtivos, meios de comunicação, instituições religiosas e facções do crime organizado, (2) a crescente capilarização de práticas in/dividualistas, misóginas, racistas e neofascistas, (2) o crescimento das alternativas sem mediação baseadas no aniquilamento, na negligência, e/ou na violência ao Outro, (4) a renovada iminência de catástrofes societárias e ecológicas, (5) o risco da instalação generalizada do pessimismo, (5) a fragmentação de um campo Comum de ação, bem como (6) a urgência de uma reversão de perspectiva, ENTÃO quais práticas instituintes se fazem necessárias no sentido de desertar o micro-fascismo  e, evitar o ocaso da própria Vida?

3. Máquinas sociotécnicas.

Dada (1) a crescente ubiquidade das máquinas sociotécnicas, (2) o domínio centralizado de seus meios de prototipagem, produção e distribuição, (3) o cada vez mais elevado uso de matrizes tecnológicas fechadas, (4) a utilização crescente de mecanismos e funções autônomas, (5) a individualização de sua posse e/ou propriedade e (6) o poder que isso determina, bem como (7) a necessidade crescente de politização das tecnologias, ENTÃO como liberar a criação sociotécnica na direção do comum de onde ela foi sequestrada?