No #LABICAR, dez projetos estão prototipando soluções inovadoras para diminuir as desigualdades e promover o desenvolvimento sustentável. No texto, breve relato dos primeiros dias como colaborador do projeto Impressões 3D para Aprendizagem Científica

Por Victor Sousa

Rosário, Argentina – Livros, mapas, gráficos, textos, cartazes, tabelas, fotos ou pinturas. É possível dizer que a aprendizagem tradicional é praticamente baseada na visão. Os outros sentidos quase não são utilizados nos processos de ensino.

Impressão 3D para Aprendizagem Científica é um dos projetos selecionados para o #labicar – Laboratório de Inovação Cidadã, que acontece entre 9 e 21 de outubro em Rosário, Argentina. A ideia do projeto é utilizar objetos de impressão 3D para facilitar a aprendizagem de crianças com deficiência visual.

O proponente do projeto é o professor Renato Frosch, de Santos-SP, e tem outros 9 colaboradores da Argentina, México, Brasil e Colômbia. Estou responsável pela documentação.

Logo após ser selecionado no processo seletivo do #labicar, Renato Frosch proponente do projeto decidiu iniciar uma campanha de crowdfunding para conseguir recursos para compra de impressora 3D.Ela vai ser doada para a Escuela Especial para Niños con Discapacidad Visual No. 2081 “Lidia Elsa Rousselle” para que as professoras possam imprimir objetos que auxiliem a aprendizagem das crianças.

Na escola realizamos um trabalho de escuta com as professoras, diretoras, colaboradoras e estudantes e decidimos que fazia sentido prototipar o projeto e doar a impressora para a instituição. Nesse momento também identificamos que as ciências naturais e geografia são as matérias que os educadores têm mais dificuldade nos processos de aprendizagem.

Criando vínculos

Renato Frosch lembra que existem muitos obstáculos quando a utilização da tecnologia é proposta na educação, mas a campanha de crowdfunding foi essencial para que as primeiras barreiras fossem quebradas. A campanha arrecadou R$ 3,500 reais para a compra de uma impressora, uma rotuladora e consumíveis para a rotuladora.

“Naturalmente, existiu certa resistência quando apresentamos o projeto e a possibilidades da fabricação digital. Mas quando anunciamos a doação da impressora, parece que o vínculo afetivo foi criado”, comenta Frosch.

O proponente do projeto explica que teve a ideia de realizar a campanha para compra das impressoras depois uma série de treinamentos para professores na periferia de São Paulo.

“Eu levava a minha impressora pessoal e depois que voltava existia uma lacuna, ficava um vazio. Percebi que era importante criar elos e não apenas transmitir o conhecimento. Parece mais significativo empoderar as pessoas e permitir a sua própria produção autônoma”, disse Frosch.

Ana Lucia Perez, colombiana professora de apoio para estudantes com deficiência visual, também é uma colaboradora chave para o a realização do projeto. Ela tem deficiência visual  e não só ajuda a validar a acessibilidade e universalidade dos objetos que o grupo desenvolve, mas todo o conceito e andamento do projeto.

“Se eu tivesse a oportunidade de entrar em contato com esse tipo de objetos em minha formação, teria tido possibilidade de imaginar e criar na mente imagens mais próximas da realidade. Não teria crescido com tantos vazios de conceitos que não se pode acessar facilmente dos outros sentidos, além da visão. Teria bases mais sólidas de certos conhecimentos”, comentou Ana Lucia Perez.

Quebrando barreiras e paradigmas

Um dos processos mais interessantes do projeto é a não intermediação no uso da impressora. Ou seja, autonomia para as professoras e educadoras utilizarem a impressão 3D em seu cotidiano.

Para isso, realizamos uma série de treinamentos e oficinas com as educadoras para ensinar o uso da impressora e suas principais ferramentas.

O colombiano Camilo Bogotá, Educador Hacker e colaborador do projeto, é um dos responsáveis em transmitir o conhecimento para as educadoras. “Elas estão muito entusiasmadas e esse é um elemento muito importante. Utilizamos um software muito sensível e fácil de usar. Apesar de ser o primeiro contato delas com esse tipo de tecnologia, já conseguimos bons resultados”, disse.

Outro colaborador do projeto, o maker Gabriel Gómez, argentino, explica que ainda existe resistência no uso da tecnologia em certos espaços, mas essas barreiras devem ser quebradas aos poucos. E para ele não existe solução melhor do que a transmissão de conhecimento.

“Uma vez que as pessoas animam-se em aprender e percebem que é fácil, podemos começar a falar do empoderamento do uso de ferramentas de produção digital”, disse o colaborador.

Ele acredita que essa campanha de capacitação é uma fase muito importante do projeto. “Estamos rompendo tabus e quebrando mitos do uso da tecnologia. O contato com a comunidade é o que nos move. E ver seus olhos brilhando com lágrimas é o que nos alimenta. É o propósito de estarmos aqui”, comenta Gabo.