1. O Instituto Procomum é uma organização da sociedade civil cuja missão é construir um mundo comum entre diferentes. Desde nosso nascimento, há quatro anos, temos como eixo transversal de atuação o fortalecimento das populações sub-representadas, com foco na promoção da igualdade racial e de gênero. Por isso, temos nos associado ativamente aos movimentos sociais antirracistas e os que atuam contra as variadas formas de opressão que caracterizam nossa sociedade. É desse lugar que escrevemos esta nota pública.

2. Como nos ensina Silvio Almeida, o racismo é um problema estrutural. A sociedade brasileira é racista e consequentemente as instituições que a compõem tendem a reproduzir esse racismo. Construir uma organização antirracista é um desafio cotidiano, que exige a adoção de políticas internas que valorizem a representatividade, permitam a ascensão de pessoas negras a postos de comando, mantenha espaços permanentes de debate sobre o tema e enfrente os conflitos que surjam em seu interior, acolhendo e protegendo os mais vulneráveis.

3. Partimos do pressuposto de que o tempo da justiça não é o tempo da mídias sociais. Que o modelo punitivista não ajuda nossa sociedade a superar seus gargalos estruturais. Acreditamos em um processo restaurativo, que enfrente os problemas em sua complexidade e que permita que todos os implicados possam com ele aprender e encontrar uma forma efetiva de reparação.

4. Anteontem uma participante do projeto A Colaboradora – Empreender e Transformar fez uma postagem racista no grupo de WhatsApp do projeto ofendendo e expondo uma outra participante com a qual vinha desenvolvendo projetos em conjunto. Diante desse fato, a coordenação do projeto e a diretoria do IP resolveram adotar as seguintes medidas:

a) suspender das atividades a pessoa que cometeu a agressão, bem como sua presença no grupo de mensagens do projeto;
b) prestar apoio institucional à participante agredida, inclusive para que ela possa tomar as devidas medidas legais em relação ao episódio, se assim desejar;
c) instituir um processo de reflexão, engajamento e envolvimento de todo o grupo dA Colaboradora em torno do tema do racismo e de seu combate, com a realização de atividades específicas que permitam a construção de um entendimento comum sobre o episódio vivenciado e suas consequências;
d) criar um grupo envolvendo a equipe do IP e colaboradores interessados em dele participar para no prazo de um mês apresentar uma decisão definitiva em relação ao episódio.

5. Ao longo dos últimos meses, A Colaboradora tem dado mostras de que a construção colaborativa entre empreendedores sociais da Baixada Santista pode ser um caminho potente para a superação das desigualdades sociais e econômicas. Com cerca de 25 pessoas, seu grupo de participantes é diverso e plural, composto em sua maioria por negras e negros, por pessoas LGBT, trans, indígenas, oriundos de territórios periféricos. Promover a convivência dos diferentes corpos, num espaço comum, não é tarefa fácil, mas temos convicção de que o respeito uns pelos outros e o empenho conjunto contra qualquer tipo de opressão pode nos ajudar a atingir nosso objetivo de construir uma sociedade mais solidária.

Santos, 26 de julho de 2019